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13/01/2012 02h37 - Atualizado em 12/01/2012 02h37

Testemunha ferida

O progresso inevitavelmente transforma lugares, homens e a própria natureza

 

Alci Massaranduba

Alci Massaranduba

Antes que houvesse cidade, estradas e habitantes, só havia o som provindo da natureza. Era preciso transpor rios e adentrar matas, cortar estradas, abrir trilhas e colonizar a nova terra. O chão antes lamacento se tornou em asfalto, as carroças deram lugar a potentes automóveis. O progresso inevitavelmente transforma lugares, homens e a própria natureza.

Em um século, uma região inabitada se tornou numa bela cidade. Toda essa incrível transformação foi observada de perto por uma testemunha muito especial. Homens e mulheres nasceram e morreram, mas ela continuou a viver desafiando o tempo com coragem. Enfraquecida pelos longos anos de vida vive com grande dificuldade, para permanecer de pé precisou de ajuda. Nunca rejeitou receber um visitante, vive no mesmo lugar por décadas e sempre esteve à disposição de todos. Ela nunca pronunciou uma palavra, mas mesmo assim, tem o respeito e admiração de muita gente. Tamanha a sua importância, através de Lei Municipal foi tombada pelo patrimônio histórico do município. É um privilégio ter 100 anos de história acompanhada por uma testemunha ocular ainda viva apesar da idade avançada.

No dia 28 de dezembro de 2011, quinta-feira à tarde, a tão querida testemunha foi ferida mortalmente. A figueira que ficava ao lado da prefeitura não resistiu ao temporal e teve o tronco partido em quatro pedaços. Toda a sua exuberante beleza foi perdida, restou o espanto ao ver a força destrutiva da natureza em ação.

As autoridades estão diante de um grande dilema, sacrificá-la ou não.”

— Alci Massaranduba

Olhares curiosos observaram com atenção o acidente, mais pela curiosidade do que pela tristeza. Em volta da árvore, considerada a mais antiga da cidade, foram edificadas as primeiras casas do município. A figueira simboliza o início da criação do município de Ponta Porã que em 2012 comemora o primeiro centenário de emancipação político-administrativa. É triste ter que dizer que é provável que os moradores a percam para sempre. Talvez você já tenha passado por ela e nem tenha se dado conta de que estava diante de uma figura tão importante.

Com a sua morte parte do patrimônio da cidade irá se perder. As autoridades estão diante de um grande dilema, sacrificá-la ou não. Não há como saber ao certo quanto tempo ainda lhe resta de vida. Mantê-la viva pode gerar novos acidentes, além disso, a sua ferida é grave e sem possibilidade de cura.

A mais antiga moradora da cidade está se despedindo. Se você estiver passando pela região onde à figueira ainda vive dê a ela um último adeus, pode ser que brevemente não haja mais chance de se despedir. A vida de todos os seres vivos infelizmente terá um fim, é o clico da vida. O importante é deixar uma marca positiva na vida das pessoas. A figueira centenária com certeza deixará.

No momento, não há muita coisa que possamos fazer, mas pelo menos podemos torcer para que o desfecho dessa história seja o melhor possível.

Alci Massaranduba - Carteiro, autor do livro “Minha Vida de Carteiro” e palestrante motivacional. Bacharel em Administração de Empresas com Habilitação em Comércio Exterior pela UEMS e Especialista em Gestão Empreendedora de Negócios pela UNIGRAN

Contato: alcimassa@ibest.com.br


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