15/12/2011 06h24 - Atualizado em 15/12/2011 06h24
Avanço da soja ameaça o Parque Indígena do Xingu
Em 2000, o desmatamento de áreas de floresta na Bacia do Rio Xingu, localizadas fora de áreas protegidas, somou quase 3 milhões de hectares
Quem olha o mapa do Parque Indígena do Xingu, no norte do estado do Mato Grosso, se surpreende com o verde que predomina nos quase 3 milhões de hectares de extensão. O mesmo mapa revela, no entanto, um entorno degradado por desmatamentos e queimadas, associados à formação de lavouras e pastagens, que já encostam nos limites do Parque. Os povos indígenas xinguanos estão atentos e, de tempos em tempos, a Atix, Associação Terra Indígena do Xingu, promove expedições de fiscalização de fronteiras. Os índios querem evitar que o lugar onde vivem, e que preservam, seja invadido e prejudicado pelo desastre ambiental que ocorre na área do entorno.
Há alguns meses, a Atix organizou mais uma uma dessas expedições. Saiu de Canarana, sede da Associação, em direção à Terra Indígena Wawi, fim da linha no rumo norte, passando pelos limites a leste do Parque Indígena do Xingu. Ao longo dos mais de 1.800 quilômetros percorridos em estradas de terra, a equipe notou desmatamentos, queimadas e os assoreamentos de nascentes e córregos. Ao mesmo tempo, também foi observado o crescimento de lavouras de soja, tanto em áreas onde, antes, se criava gado, como onde havia floresta em pé.
Das áreas de florestas e cerrados da região, descritas no último trabalho de campo realizado pelo ISA, Instituto Socioambiental, e pela Atix , muitas desapareceram e outras áreas foram intensamente alteradas.
Dados do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mostram que em 2000, o desmatamento de áreas de floresta na Bacia do Rio Xingu, localizadas fora de áreas protegidas, somou quase 3 milhões de hectares, o equivalente a pouco mais que um Parque do Xingu. Embora, daí em diante, os números estejam baixando, ainda são alarmantes.
À medida que a equipe avançava no percurso, era possível observar que a maioria dos desmatamentos era recente - principalmente na área de floresta de transição entre o Cerrado e a Amazônia - e tinha relação com a abertura de novas áreas para o plantio da soja. Segundo a Empaer, a Empresa de Assistência Rural do Estado do Mato Grosso, o cultivo da soja tornou-se a atividade agrícola predominante em todo o leste mato-grossense, que envolve parte da bacia do Rio Xingu e parte do Vale do Araguaia, rio que delimita a fronteira com Goiás.
Apesar desse avanço, que acontece também sobre áreas de pecuária, a soja não conseguiu ainda desbancar a pecuária, que ocupa mais de 50% das terras produtivas do leste do Mato Grosso. A substituição do boi pela soja se explica por várias razões: queda de produtividade da pecuária devido à degradação do solo; disponibilidade maior de crédito; facilidade de manejo do cultivo; produtividade e rentabilidade. O preço das sacas de soja é determinado pelo mercado internacional, como a bolsa de Chicago, pelo mercado interno e pela cotação do dólar.
Segundo a Bunge Brasil, uma das empresas compradoras e armazenadoras da oleaginosa, em Canarana, o principal motivo do avanço da soja é o lucro que o produtor tem. "O preço da soja está no auge de uns dois anos para cá, está muito bom. Quem consegue colher 50 sacas por hectare tem um retorno de cerca de 35%", explica. Já o retorno da pecuária é bem menor, cerca de 10%, segundo dados da Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
Colaborou Vinicius Lopes Doti
Contato: lopesdotti@hotmail.com


