Brandenburg: o aeroporto fantasma de Berlim

15/01/2019 22h49
Crédito: divulgação/Assessoria Crédito: divulgação/Assessoria

Dezenas de portas estão prontas para receber os aviões. As telas mostram informações de voos em tempo real. Os terminais recém-inaugurados esperam que os passageiros cheguem. O aeroporto Brandenburg Willy Brandt (BER), em Berlim, na Alemanha, é igual qualquer outro dos modernos pontos de embarques e desembarques da Europa, mas está vazio há sete anos depois da data prevista para sua inauguração.

O aeroporto se tornou uma piada entre os habitantes da capital alemã, ao mesmo tempo que virou dor de cabeça para as autoridades, para empresários e mesmos para quem vive perto. Originalmente, se esperava que o Brandenburg , financiando pela administração de Berlim, pelo estado de mesmo nome e pelo governo federal, custasse US$ 2 milhões (R$ 7,5 milhões) e repassasse boa parte do mercado de passagens aéreas do Tegel, principal aeroporto da cidade.

No entanto, no começo desse ano, os governos disseram que os custos estimados atuais chegaram a US$ 8,2 milhões (R$ 30,9 milhões), valor que poderia aumentar ainda mais dependendo do quanto o prazo por atrasado novamente. Todos os meses que o aeroporto permanece fechado, os custos de manutenção em euros aumentam.

"Houve uma série de erros importantes que contribuíram para o resultado final", disse o professor da Escola de Governo Hertie, em Berlim, Jobst Fiedler, à rede britânica BBC. Ele elaborou um estudo em 2015 sobre o aeroporto. "Deveria ter sido inaugurado em junho de 2012, mas naquele ano já tinha um excesso de custos e de tempo, mas a história vai além disso", completou.

O plano do novo aeroporto começou depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. Naquela época, ficou claro que, com o aumento instantâneo do tamanho da cidade, era preciso um terminal maior que os dois que tinham sido construídos durante a Guerra Fria: o Tegel, na antiga Berlim Ocidental, e o Schönefeld, na parte Oriental.

A cidade começou a construção do novo aeroporto em 2006, acreditando que os dois aeroportos seriam fechados quando o Brandenburg ficasse pronto. No entanto, o primeiro sinal de algo ia errado aconteceu na metade de 2010, quando a empresa responsável pela obra, a Flughafen Berlin-Brandenburg, controlada pelos governos estadual e federal, adiou a abertura do aeroporto de outubro de 2011 para junho de 2012.

Na data marcada, realmente parecia que o terminal abriria suas portas: a cidade planejou uma cerimônia com a presença da chanceler Angela Merkel e outros líderes políticos alemães, mas um mês antes do evento foram encontrados problemas graves no sistema de segurança contra incêndios -- e a abertura foi adiada para 2013.

No entanto, logo a imprensa de Berlim descobriu que não se tratava apenas do sistema de segurança: como 90 metros de cabos tinham sido instalados incorretamente, quatro mil portas estavam com os números errados e as escadas rolantes eram pequenas demais para fazer as ligações entre os andares, o Brandenburg não tinha condições de receber grandes multidões.

Além disso, a empresa admitiu que não tinha comprado todos os telões de check-in que haviam sido propostos, o que fez as autoridades chegarem a sugerir que as companhias aéreas colocassem seus voos à frente de cada salão do aeroporto por conta própria. Obviamente, elas se recusaram.

Em entrevista ao jornal alemão Bild, o porta-voz do comitê do aeroporto Brandenburg no parlamento de Berlim, Jörg Stroedter, disse que os erros foram seguidos por decisões de consertá-los, não de recomeçar estruturas do zero, o que fez com que os custos disparassem. "A abertura falida em 2012 deveria ter levado à decisão de desmantelar todo o edifício e todas as instalações que já estavam prontas", admitiu.

"Se isso tivesse acontecido, o aeroporto já estaria funcionando agora, com instalações ainda mais modernas e menos complicadas", continuou.

A Flughafen Berlin-Brandenburg argumenta que não seguiu a sugestão apontada por Stroedter em 2012 porque não queria perder os recursos que já havia colocado no projeto. Preferiu, assim, consertar os problemas e manter a obra no estado que estava. Porém, quanto mais se adiava a inauguração, mais problemas eram encontrados pelos inspetores. Durante a crise, a chefia da empresa foi mudada várias vezes.

Para Fiedler, da Hartie, um erro crucial foi a decisão da Flughafen Berlin-Brandenburg de tocar a obra sozinha, sem o auxílio de uma empresa especializada em grandes construções. Segundo ele, a companhia não tinha experiência em projetos de engenharia desse porte. "Foi um projeto único para a vida deles. Nunca tinham recebido um contrato desse tamanho. No entanto, o conselho da empresa, formado por políticos, claro que não conseguiu dar conta do trabalho", explicou à BBC.

O que agrava ainda mais os adiamentos é que o aeroporto inutilizado está acumulando custos. Cada mês fechado cobra US$ 10 milhões (R$ 37,7 milhões), revelou recentemente a Flughafen Berlin-Brandenburg ao parlamento de Berlim. Segundo ela, esses valores incluem a construção, a manutenção técnica, a gestão das instalações e os serviços de segurança. Ainda de acordo com a empresa, entre 300 e 500 pessoas trabalham hoje no aeroporto regularmente.

Os custos de limpeza, de manutenção, os reparos e a energia usada nos terminais de passageiros são tão altos que os titulares das dívidas chegam a ser cômicos. No começo desse ano, por exemplo, todos os 750 mil monitores que mostravam informações de voos tiveram que ser substituídos a um valor de US$ 563 mil (cerca de R$ 2 milhões), porque os antigos queimaram. O assunto virou um escândalo na imprensa alemã.

Em 2013, uma falha de sistema fez com que os controladores do Brandenburg não conseguissem apagar as luzes dos terminais. Ainda é possível chegar ao aeroporto por meio de um sistema de trens que, obviamente, chegam aos terminais vazios. Na imprensa, alguns especialistas já sugeriram que Berlim destrua o edifício e o comece de novo. No começo de 2018, um executivo da Lufthansa chegou a dizer que o terminal novo nunca será inaugurado.

A Flughafen Berlin-Brandenburg discorda: recentemente, a empresa disse que, se tudo der certo, o Brandenburg vai abrir suas portas em outubro de 2020. Apesar de reconhecer que existem vários erros para corrigir até lá, a perspectiva se mantinha até outubro deste ano. Em 2019, uma série de inspeções vão começar a acontecer novamente para permitir a abertura do terminal.

A Alemanha, no entanto, não vive um drama desse tipo apenas com o aeroporto de Berlim: a nova estação de trem de Stuttgart, anunciada em 1995, só vai ficar pronta em 2021. Em Hamburgo, a sala de concertos Elbphilharmonie abriu suas portas recentemente com um custo extra de US$ 788 milhões (R$ 2,9 milhões).

Assessoria de Comunicação

 

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